

O culto ao Sagrado Coração de Jesus é uma devoção que se aclimatou às diversas estações da história da Igreja. É uma piedade que nunca se extinguiu e jamais irá apagar-se porque é a própria água viva que germina no lado aberto. Por isso, sempre irá se expandir, saciar almas e trazer fecundidade às comunidades que beberem deste manancial inextinguível.
Santa Margarida Maria – o culto como nós o celebramos hoje origina-se na experiência espiritual de uma religiosa francesa que morreu muito jovem, com 43 anos, chamada Maria Margarida Alacoque (1647-1690). Canonizada em 1920 pelo Papa Bento XV, Santa Margarida Maria é celebrada no dia 16 de outubro. Um ano após seu ingresso no convento da Ordem da Visitação ela teve a primeira experiência mística, no dia da festa de São João Evangelista. As mensagens recebidas por Santa Margarida no silêncio da capela em adoração ecoaram nos séculos seguintes. Especial importância tem a mensagem da festa de Corpus Christi de 1675. Mostrando o seu coração a Margarida Maria, e através dela a toda Igreja, o Senhor revelou:
“Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar seu amor. Como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelas suas irreverências, sacrilégios, e pela tibieza e desprezo que têm para comigo na Eucaristia.”
Nestas palavras encontramos algumas características centrais da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Podemos destacar três delas: a contemplação do coração, a gratidão ao amor divino e a vivificação do culto eucarístico. Reflitamos sobre o primeiro elemento.
Contemplação do coração – na experiência de Santa Margarida Maria o Senhor solicitou que a imagem do seu coração fosse exposta, particularmente nas famílias, “para que o seu Coração fosse honrado”. Assim, a contemplação da imagem do Sagrado Coração de Jesus traz paz ao coração daquele que nela fixa o olhar, unificando seu ser, sua vida e seus sentimentos. Aqui aprendemos algo importante: o culto ao Sagrado Coração de Jesus passa necessariamente pelo olhar zeloso.
Segundo o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (2002), “pode dizer-se que a devoção ao Coração de Jesus é a tradução em termos cultuais do olhar que, segundo as palavras proféticas e evangélicas, todas as gerações cristãs voltaram para aquele que foi traspassado (Cf. Jo 19, 27; Zc 12, 10), isto é, o lado de Cristo atravessado pela lança, do qual brotou sangue e água, símbolo do sacramento admirável de toda a Igreja”.
O texto de Zc 12,10 afirma: “olharão para aquele que transpassaram”. Esta profecia se cumpre em todos as capelas e lares em o Sagrado Coração de Jesus é cultuado. Mas aqui é preciso atenção. O chamado do Senhor à contemplação do seu Coração não é um convite à visualização de algo inerte. O olhar endereçado ao Coração do Mestre é, na verdade, um encontro de olhares. Não comtemplamos uma imagem estática, mas viva. Nas mensagens a Margarida Maria foi explícito o desejo que houvesse chamas de fogo sobre a imagem do coração. Isto é, não contemplamos algo ou uma imagem imóvel. Contemplamos alguém que também nos dirige o olhar. Na contemplação do Sagrado Coração de Jesus nós nos sentimos envolvidos e incendiados pelas chamas da misericórdia divina. Em cada Adoração que participamos nós estamos inseridos em várias passagens bíblicas que narram o olhar compassivo de Jesus. Alguns exemplos:
“Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9,35)
“Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes.” (M 14,14)
“Ao vê-la, o Senhor encheu-se de compaixão por ela e disse: “Não chores!” Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o carregavam pararam. Ele ordenou: “Jovem, eu te digo, levanta-te!”” (Lc 7, 13-14)
Portanto, o convite de Jesus à contemplação de seu coração é, na verdade, um convite a ser abraçado pelo seu olhar. Adão e Eva se escondem do olhar de Deus. Jesus é o bom pastor que avança sobre os desertos buscando as ovelhas fujonas. Ele quer nos conduzir a tal intimidade que o encontro de olhares não envergonha o pecador reencontrado.
Outro texto que insiste na contemplação da imagem é aquele em que Jesus apresenta as mãos e o lado aberto aos discípulos (cf. Jo 20, 20). Diante da negativa de Tomé em acreditar no testemunho de seus companheiros, o Senhor aparece novamente ao grupo e faz um desafio a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado.” (Jo 20,27) Bento XVI comentando este versículo recordava que agora Jesus pode ser reconhecido mais pelo seu coração e por suas chagas do que pela sua face. Os sinais que confirmam a identidade de Jesus passam pelas cicatrizes da cruz.
O convite feito a Tomé é feito a cada um de nós: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado!” Assim, o apelo à contemplação do lado aberto leva o fiel a ouvir esta ordem: “estende a tua mão”. O encontro com Jesus não se faz somente pela visão, mas também o tato. Sim, é possível tocar Jesus, pois agora não mais o buscamos às apalpadelas (cf. At 17,27), mas o encontramos na eucaristia, nos enfermos, na Palavra, nos pobres e na comunidade.
Assim, o culto ao Sagrado Coração de Jesus inicia com o convite de Jesus a contemplar seu coração, passa pelo encontro de olhares e corações e se completa quando repousamos nossa mão e nossa vida em suas chagas. Isto é, Jesus nos convida a fazer uma experiência mais íntima, que se plenifica na Eucaristia: “Isto é meu corpo entregue por vós” (1 Cor 11,24). A devoção começa com o convite ao olhar, mas se realiza na missa.
Nesta devoção encontramos todos os tesouros da revelação e da misericórdia divina. Ela é a porta para o encontro com Deus. Por isso afirmou Santo Agostinho: “A entrada é acessível: Cristo é a porta. Também se abriu para ti quando o seu lado foi aberto pela lança. Lembra o que dali saiu; portanto olha por onde podes entrar. Do lado do Senhor pendurado que morria na Cruz saiu sangue e água quando foi aberto pela lança. Na água está a tua purificação, no sangue a tua redenção.”
Pe. Emerson M. Ruiz, scj